Nos Despedimos

Há 2 anos decidimos transformar o que fazíamos juntas em uma profunda experimentação. Decidimos ser um coletivo e ter um espaço aberto que potencializasse nossas vontades de fazer diferente de tudo aquilo que não nos confortava. Surgiu o Coletivo Germina.

Em 17 meses deste tempo estivemos com a porta escancarada. Experienciando. Agindo. Recebendo. Doando. Servimos mais de 46 mil refeições em quase 1 mil aberturas para jantares, almoços e cafés. Recebemos dezenas e dezenas de iniciativas, movimentos, pessoas cozinheiras, outros coletivos…

O que é mais incrível e propulsor é o não-quantificável, o não-explicável, o que nos escapa agora traduzir. A história é que abrimos a porta e a partir disso, tudo se faz através de milhares de vidas que por aqui passam. A magia que é baseada na possibilidade da ação de amar e mudar as coisas. Que faz com que num mundo de disputa e consumo, passamos a querer doar e compartilhar e até entendamos como receber.

O Coletivo Germina descontinua o seu fazer da forma que todas conhecem no próximo dia 29 de julho. Nosso sorriso é não poder dizer que acaba, pois sementes que reverberam em qualquer terra geram vidas. Fazer essa ação nos exige uma dedicação enorme. Vamos agora seguir e viver aquilo que pulsar para cada uma em seu tempo e seu espaço.

Somos alegremente agradecidas a todas as pessoas e grupos que fizeram juntas esse espaço e o que reverbera dele acontecer.

Estamos nesses dias que faltam aqui para receber beijos e abraços! =) Venham!

“Deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar. Sorrir pra não chorar.” Cartola

A casa da Duplan, 60 seguirá como um restaurante antiespecísta, aberto todos os dias. O Aurora será conduzido pela Bibi e pelo Alan Chaves.

As mina Kady e Amandha seguem com o Rango das Mina no Aurora e por onde mais acontecer.

Marci e Dani seguirão realizando suas noites na Fermentô e fazendo acontecer a Amada Massa.

Abaixo uma pequena mensagem de cada uma de nós sobre o que significou o Germina nas nossas existências:

Amandha:

O Germina me proporcionou uma perspectiva de vida que eu jamais imaginei, me fez questionar coisas que eu jamais imaginei, ou que nem sabia que existiam. E até mesmo coisas que sempre existiram aqui e nunca entendi o porque.  Aprendi que autonomia e a liberdade podem passar de palavras. Se a gente acredita e faz acontecer essa energia se transforma em atitudes que mudam vidas pra além das nossas… Das muitas coisas que o Germina me ensinou a principal delas foi entender que faz muito mais sentido compartilhar ao invés de dividir. Pois quando a gente compartilha o que temos acesso e fortalecemos o outro, a gente também tá se fortalecendo e tá criando uma conexão que com o tempo pode virar uma rede de apoio.  Juntas, caminhamos muito pra chegar onde chegamos, e daqui pra frente, tudo que foi vivenciado vira base e terra fértil pra novas sementes. 

Bianca:

O Germina foi a janela pra novas vivências. Desde antes de nos chamarmos Germina, sempre foi um lugar onde experimentei. Me juntei com pessoas que um tempo antes não tinham nada a ver com a minha vida e de uma hora pra outra essas pessoas viraram, de maneira muito natural, minhas companheiras de quase tudo. Com o Germina descobri que é possível e viável ser rodeada de pessoas que se tratam com cuidado e de maneira muito ‘humana’. Testei minhas habilidades em tarefas que eu nunca tinha feito e vi que posso fazer muitas coisas. Ultrapassei o que achava ser o limite do meu corpo cansado. No Germina aprendi a ter confiança para ser cozinheira de várias pessoas. Aprendi que dá pra viver com pouco dinheiro sem ficar se preocupando com isso. Fiz parte da minha primeira pilha de grana e achei incrível a maneira de compartilhar sem precisar dividir igualmente. vi que é possível ver e respeitar que cada uma tem necessidades diferentes e passei a achar muito injusto que não seja assim, em todos os lugares. Neste tempo eu pude conhecer pessoas de uma forma que eu dificilmente conheceria e comprovei que algumas vezes, fazer o que parece pouco pode ser o estopim pra ajudar a melhorar a vida de alguém. No Germina aprendi que é possível fazer o que eu acredito ser coerente pra uma vida melhor. Vi e vivi a rede de pessoas que nos cercaram (e cercam) e me surpreendi com o tanto que é possível fazer quando se pode contar com os outros. Aprendi que juntas somos mais fortes. Muitas vezes olhei pra gente e tive a clara sensação de que a gente podia tudo. Levo muitas coisas em mim que são frutos da minha experiencia enquanto parte do germina, mas uma das que mais me toca é a força que é possível ter quando se está em grupo. falo pra além do coletivo, falo da força do Germina com a rede que foi criada nesse tempo… Isso é lindo pros meus olhos.

Kady:

Vivenciar o Germina foi um aprendizado diário de coisas muito pontuais. Nessa casa entendi que nada é feito sozinho e mesmo quando é, não faz sentido algum se tu não tem com quem compartilhar esse feito. Aprendi a vivenciar a fragilidade e ao mesmo tempo a força das relações e o quanto é importante fazer-se claro, transparente e sincero. Percebi que tenho inúmeros privilégios e como usar deles para alavancar quem os não possui. E a receber todos os “tapas na cara” que reconhecer esses privilégios te dão. Achava que tinha problemas ou que os maiores do mundo eram sempre os meus… nossa, o quão enganada eu estava. Aprendi a me conectar e a importância e força que essa palavra tem e até onde ela pode te levar. Saio dessa experimentação com a certeza que tudo que quisermos pode ser feito e que não há quem possa destruir isso se não nós mesmos.

Marci:

O mundo como ele é não nos serve. Desigual, cruel, seletivo, exigente. Em tempos de individualismo e egos borbulhantes o Germina é uma tentativa de aproximação de pessoas através da troca e da construção de relações de confiança e cuidado, uma experimentação que me levou a entender quão capazes somos de mudar a nós mesmas e o impacto das nossas ações no mundo/bolha que vivemos. Pouco importa quem somos, realmente importante é ser quem queremos ser e essa vivência me permitiu praticar cuidado, empatia e atenção com as relações, mudando o rumo da minha existência.  Expandir nossa capacidade de viver em coletivo e desapegar de egos e protagonismos é uma luta diária, um gesto transformador, e a prática além de mostrar a potência da nossa existência, é um ato revolucionário. Sozinhos não somos nada.  

Alan:

O Germina foi a realização de uma utopia, a concretização. Em um mundo de diversas ideias que ficam somente da boca pra fora, o Germina consolidou e solidificou todos os pensamentos etéreos do que seria viver o mais perto de ser livre, ou da liberdade. Aprendi que pra ser livre eu justamente tenho que assumir compromissos com outras pessoas que também tem o direito de serem livres e lutam por isso. Que a liberdade é comprometimento, é uma responsabilidade muito maior cuidar de tudo e todas, mas que não parece tão pesado e difícil quando todas as pessoas envolvidas dão o mesmo de si, formando uma trança, uma rede que segura organicamente com força e delicadeza todas as intempéries. Quebrar a divisão que existe entre a luta da Libertação Animal e Libertação Humana e entender que quem explora o animal humano também explora o não-humano também foi importante para tentar ampliar o conceito dessa liberdade. Fundir as lutas não é deixar tudo confuso, e sim mais forte. As barreiras mais resistentes são as imaginárias. Sozinhxs não conseguimos quebrar essa barreira, mas que cada iniciativa abra um trinco onde a liberdade comece a vazar. Morrer, sobre uma ótica egoísta e mesquinha, é acabar para algumas pessoas. Um amigo meu me disse isso. Amigo que fiz nessa caminhada junto com as pessoas que me deram a mão. E ele disse também que morrer é voltar a fazer parte do solo, do planeta, do cosmos. é virar outra coisa. Disso ninguém escapa. Tudo muda. Resta sempre olhar pra si e em volta pra perceber o  quanto o momento que estamos é importante, e se por acaso perdemos essa oportunidade, que olhemos pra trás com carinho, mas que não sirva como uma ancora que nos impeça de sair de um porto pra ir em outras águas. Que não seja uma pedra que temos que carregar pra sempre, as vezes esquecendo do porque estamos a carregar. MAs também não olhemos demais pro futuro, pois ele nos ofusca do que estamos vivendo agora. só tem o agora. se você está aqui, agora, lendo isso, é porque ainda dá tempo. Você ainda não está morto. Ainda não está morto pra algumas pessoas, nem de volta pro solo. dá tempo de agradecer por ter tido força de estar até aqui, de ter sido ajudado na caminhada, e de ajudar as pessoas a caminhar também. Agora cada pessoa segue o seu caminho, e começa um novo. os matemáticos dizem que duas linhas paralelas se encontram no infinito. alcançamos o infinito. sigamos em paralelo.

Dani:

O Germina é ação. É o fazer acontecer das ideias sem ficar estacionado na velha pergunta do como fazer. É tudo que podemos ser sem medo. Um micro-mundo de cuidado, cooperação e compartilhamento servindo de contra-mola diante de uma sociedade colapsada baseada na competição, no consumo e no sofrimento. É uma tentativa de minimizar dores e desigualdades e gerar sorrisos. É uma tentativa de gerar liberdades e protagonismos que não são baseados em privilégios. É onde estou mais profundo e me leva para onde vou agora que é além. É minha própria vida.

 

Coletivo Germina

Julho/2018